Você conseguiria viver 10 anos de férias gastando R$ 10 por dia?

Parece loucura, mas esse é um projeto real, idealizado pelo educador físico Tarso Gonçalves Soares, de 36 anos. Natural de Pelotas, Rio Grande do Sul, ele decidiu viver 10 anos de férias gastando R$ 10 por dia.

Em menos de dois anos, com uma mochila, viagens de carona, pernoites em sua barraca e alimentação baseada em plantas, ele já conheceu mais de 500 lugares incluindo 9 estados brasileiros e três países.

Tarso transformou o seu ano sabático em uma década. (FOTO: arquivo pessoal)

Se você assistiu o filme Into the wild — Na Natureza Selvagem, tem interesse pelo minimalismo, identifica-se com as canções de Belchior e Raul Seixas ou acompanha a peregrinação de Eduardo Marinho, certamente vai gostar deste texto.

Como tirar 10 anos de férias?

Tarso começou a planejar esse projeto em janeiro de 2017 e trabalhou pela última vez em abril do mesmo ano. Como empresário, trabalhava pouco, tinha flexibilidade de horário e ganhava muito bem. No entanto, preferia os finais de semana à rotina de trabalho.

Ele buscava exercer a sua liberdade no auge da sua disposição física, então decidiu em investir em si mesmo com um ano sabático de presente. Mas, antes de partir percebeu que, se gastasse muito pouco, poderia transformar esse período em uma década!

Para entender melhor como começou essa jornada, que conta com a companhia de seu cachorro de estimação, nada melhor do que ler o seu relato. Em seguida, veja uma entrevista com detalhes e curiosidades dessa viagem que está apenas começando.

 

10 anos de férias gastando R$10 por dia, por Tarso Gonçalves

Já me perguntaram ‘quatrocentas e cinquenta e quinze’ vezes por que eu resolvi parar de trabalhar, vender tudo e viver com 10 reais por dia. Perguntaram se eu não tenho medo e eu disse que teria medo é de uma vida infeliz, chata, que eu não me orgulhe de ter.

Fui personal trainer de gente muito rica na Austrália e no Brasil e achava que os meus parentes e alunos mais ricos não eram os mais felizes. Tinham orgulho de suas conquistas e de sua ‘posição-quando-comparada-com-os-outros’, mas nem sempre de quem eram de fato, e muito menos da rotina que tinham. Eu não me via ali, essa é a verdade.

Meu hobby era barato. Meu lazer era barato: correr, acampar, fazer trilha, ir à praia, mergulhar, nadar, remar, conversar, namorar. Eu era feliz com pouco, mas precisava de muito dinheiro para pagar coisas que eu não queria de fato: casa, carro, restaurantes, pousadas, roupas (essa última eu ainda faço uso, por razões óbvias rsrs).

Eu adoro visitar pessoas. Adorava a ideia de passar semanas na casa da mãe, do pai, do tio, do primo, do vô, da tia, do amigo de infância, do colega de faculdade, dos amigos do triathlon, dos colegas do cursos de inglês e de fitness que fiz na Austrália. Se eu tivesse longas férias, faria isso com toda certeza.

Eu preferia ficar 2 meses acampado num paraíso do que 2 semanas num resort de luxo. Eu queria tempo de vida de fato.

Eu não acredito em Deus, anjos, pós-vida, nada disso. Amo a minha vida, este planeta e os seres vivos por si só. Mas uma coisa meio “mística” que também respondeu à pergunta do título foi a noite, as estrelas, o universo. Essa coisa da gente ser tão pequeno, tão insignificante.

Que diferença eu faria se eu fosse um ‘economicamente-quase-inútil’ para a sociedade, sendo que não farei mal a ninguém e provavelmente continuarei influenciando pessoas positivamente como sempre fiz, dando dicas de saúde e atividade física?

Também um pouco nessa “pegada mística”, eu não sentia REALIDADE nas coisas da vida “normal”. Me sentia vivo de fato quando corria no mato, quando nadava nu, quando dormia no chão e quando fazia sexo.

Só hoje, lendo o livro “Sapiens – uma breve história da humanidade”, enxergo que, de fato, dinheiro, empresas, política e países nada mais são do que coisas nas quais a humanidade resolveu acreditar que são reais.

Eu tinha algumas aventuras de 15 ou 30 dias em mente, e tinha também uma vontade de viver como um índio ou um coletor-caçador de 20 mil anos atrás por uns 3 meses num paraíso qualquer ao lado do mar.

Queria fazer isso enquanto jovem, e percebi que 99% das pessoas ao meu redor jamais conseguiriam viver 3 meses de liberdade absoluta antes da aposentadoria. Assim, percebi que, de fato, teria que fazer algo bem diferente.

Tinha vontade de ser nômade por um tempo. Sempre achei a vida longa e linda demais pra gente só viver num lugar ou trabalhar só com uma coisa. Recentemente aprendi que, por milênios, nós humanos de fato éramos nômades (essa coisa de trabalhar é uma invenção BEM recente).

Conheci e ouvi falar de pessoas com estilos de vida muito autênticos. Gente que não usa dinheiro e vive da terra, gente que vive com pouco mais de R$100 mensais e tem um brilho nos olhos que me agrada ter.

 

Como viver com apenas R$ 10 por dia?

Ficou curioso para saber sobre a preparação e rotina dessa aventura? Então confira a entrevista a seguir.

 

Como era a sua rotina antes?

Trabalhava pouco, 11 horas por semana de aulas e mais algumas horas de trabalho pelo celular, e ganhava muito bem. Como dono da empresa, tinha muita flexibilidade de horário.

Como foi a reação da sua família e dos seus amigos?

Frase típica de amigos: “Caramba, cara, tu é doido. Que coragem”. Minha mãe falou em falta de foco e expliquei que era o contrário: havia descoberto o que queria realmente da vida. Ela concluiu: “ok, entendo: estás precisando de um período sabático, e isso é muito bom. Manda bala”.

Como você se preparou financeiramente para passar 10 anos de férias?

Calculei quanto custaria para tirar 3 meses de férias. Vi que era muito barato, pois já tinha a ideia e vontade de viver com pouco. Calculei quanto tempo poderia ter se vendesse a empresa e o carro. Bem nessa época a casa foi vendida e percebi que tinha grana para 20 anos.

Usei parte do dinheiro para comprar um terreno e me sobrou o suficiente para 10 anos. Fiz o experimento de viver exatos 3 meses gastando apenas 10 reais por dia com alimentação (fora luz, água, gasolina e todas as despesas “comuns”).

E psicologicamente?

Não me preparei. Ou, se me preparei, foi natural e automático. Talvez embutido na preparação financeira.

Como você define o roteiro?

Não há. O objetivo é exercer minha liberdade plena. Quero dar a volta ao mundo mas me mantenho livre para mudar de planos a qualquer momento.

 

Além de viajar muito, você também tem uma ligação forte com esportes. Quais atividades você pratica?

Natação em piscina (raramente), natação em águas abertas, ciclismo de estrada, ciclismo de montanha, corrida de rua, corrida de montanha, triathlon, calistenia, e tenho boa noção de escalada (pratiquei muito no passado).

O seu perfil diz que você já participou de 4 edições do IronMan. Você continua treinando ou pretende competir novamente?

Sim, foram 4 fulls: 2 da marca ironman e 2 alternativos: Fodaxman e Capixaba de Ferro. Este último fiz já durante a viagem, vivendo com 10 reais por dia e usei o treinamento para ir até a prova (foram 3000km do RS ao ES). Obviamente não paguei inscrição (ganhei de presente de um amigo de adolescência).

Me considero sempre em condições de completar um ironman dentro de 10 dias: só preciso de 2 ou 3 treinos de ciclismo, pois natação é meu ponto forte e corrida é o que mais pratico.

Como você se alimenta nas viagens? Qual a sua relação com as PANCs?

Me considero “Plant Based”: baseado em plantas. Muito raramente aceito algum produto que não seja vegetal ou que seja manipulado por humanos (por exemplo queijo, mel, sal, ovo, macarrão, farinhas, farináceos ou qualquer coisa embalada) que me oferecem durante minhas andanças.

Me alimento basicamente das coisas que compro: exclusivamente frutas, legumes, verduras (muito raro), tubérculos e amendoim. PANCS são o que uso para substituir as verduras, que são caras se analisarmos o preço do quilo.

Como o Dudu embarcou nessa aventura? Como é viajar com um cachorro?

Ele participa quando é conveniente para mim e para a Cláudia (minha ex mulher e “mãe do Dudu”). Se planejo uma viagem muito longa, ela não aguenta de saudades e fica com ele. Viajar com ele me limita um pouco (no sentido de que não posso, por exemplo, andar de metrô ou ficar na casa de qualquer amigo), mas vale a pena. Abre muitas portas e ele é sensacional – muito educado, parceiro e adaptável.

Durante as viagens, ao contar a sua história, que feedback você recebe?

Todo mundo demonstra admiração e interesse — e isso obviamente não significa que que de fato acham legal para pôr em prática em suas vidas.

 

Quantos “bens materiais” você possui? É possível viver somente com eles?

Acho que, no momento, são 65 (a escova de dente, por exemplo, conta como um item). É possível, sim. Tenho muito mais do que o “fisiologicamente necessário”.

As suas postagens inspiram muitos seguidores. Quais são os seus pensadores favoritos?

Henry David Thoreau (“A verdadeira riqueza de uma pessoa é medida pela quantidade de coisas que ela não precisa”); Engenheiros do Hawaii ; Eddie Vedder; Raul Seixas (destaque para “Ouro de Tolo”); Filósofos minimalistas e referências em saúde de modo geral; Yuval (em seu livro “Sapiens – uma breve história da humanidade”).

Já ficou doente durante uma viagem? Se sim, como foi?

Não. Costumo dizer que diariamente, e a cada minuto, colho os frutos de uma vida saudável. Quebrei um dedo da mão ao cair durante uma corrida numa trilha escorregadia. Foi tranquilo, graças ao serviço público de saúde do local onde eu estava.

E a vida amorosa, como conciliar?

Acho que as gurias acabam me vendo como uma espécie de “símbolo de liberdade”. Temos momentos maravilhosos juntos, regados a conversas profundas sobre a vida e afeto sem barreiras, travas ou tabus.

Como concílio? Não sei se concílio, rsrs. As coisas acontecem no aqui e no agora e se mantém assim, mesmo com a distância. Acho que tudo rola muito naturalmente: desde as aproximações até os afastamentos.

 

Algum fato engraçado? Que história mais te marcou?

Tenho uma dificuldade imensa de lembrar de casos específicos e costumo olhar minhas próprias fotos e textos para relembrar. Recentemente um policial ia prender o motorista que estava me dando carona mas, ao saber que eu tinha carteira, salvou o dono do veículo ao exigir que eu dirigisse até sua casa, 50km mais à frente.

Um caso marcante foi de susto, mesmo: inexperiente, no início da viagem, fui surpreendido pelo segurança do posto de gasolina abandonado onde eu estava trocando de roupa para logo dormir. Fui flagrado nu, num breu total, e o cara se assustou acho que tanto quanto eu. Gritamos muito mas havia muito eco. A discussão inaudível só terminou quando o segundo segurança disparou um tiro de efeito moral (neste momento eu fiquei quieto, rsrs). Quase infartei.

Quais são as maiores dificuldades que você enfrenta? E os benefícios?

Dificuldades: armar a barraca quando está chovendo. Recentemente passei uma noite inteira numa loja de conveniência, esperando a chuva passar. Mas, de férias, dormi das 5 às 17h, depois. Rsrs.

Benefícios: todos os dias penso “caramba, eu tô de férias pro resto da minha vida! Falo três línguas! Posso rodar o mundo e tenho saúde demais da conta! Será que eu mereço tanto?? Mereço, mereço…”

Se arrepende de algo? Que aprendizados essa aventura já trouxe?

Não me arrependo de absolutamente nada. Cometi erros que, se não os tivesse cometido, não sei o que teria acontecido. E ninguém sabe o que as infinitas possibilidades da vida poderiam ter causado no presente. Só nos resta, no presente, ser grato ou arrependido. Eu escolho ser grato.

Os maiores aprendizados não tem a ver com o fato de ser nômade. Tem a ver com o fato de: 1) ter muito tempo livre para pensar e conversar; 2) conhecer pessoas e histórias de vida incríveis; 3) ter tempo para experimentar de tudo (e obviamente não me refiro a coisas que custam dinheiro).

Que conselho você dá para quem quer começar a vida de mochileiro?

Gaste pouco. O que escraviza não é o trabalho, é o consumo. Não te rendas ao que tentam te vender. E não morra.

 

Projeto 10 anos de férias gastando R$ 10 por dia

Como você percebeu, passar 10 anos de férias gastando R$10 reais por dia requer muita motivação e planejamento. Porém, mesmo sendo um projeto ousado, Tarso está conseguindo realizá-lo. Que tal usar a história dele como inspiração para realizar projetos mais adequados à sua realidade?

Por exemplo, conhecer as praias da sua cidade, viajar para as chapadas brasileiras, explorar os parques nacionais ou até realizar uma única viagem para o destino dos seus sonhos.

Gostou do texto? Então siga o perfil de Tarso Gonçalves no Instagram. É por lá que ele compartilha as suas aventuras reflexivas e inspiradoras.