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Francisco Uchôa é quem toca os empreendimentos da família. (FOTO: Rosana Romão)

Trilha do café em Guaramiranga: história da família Uchôa

Sair de Fortaleza e curtir o friozinho da serra tomando um café quentinho. Quem vai ou pretende ir à Guaramiranga tem mais uma programação a acrescentar no roteiro: a trilha do café. Localizada no Sítio Águas Finas, da família Uchôa, é parada obrigatória para quem gosta do contato com a natureza e dessa bebida que faz parte do nosso cotidiano, o café. Fiz a trilha e vou contar um pouco para vocês.

A trilha dura cerca de 1h30. (FOTO: arquivo pessoal)

A trilha dura cerca de 1h30. (FOTO: arquivo pessoal)

A história do Café no Ceará se confunde com a história da família Uchôa. O patriarca da família tem os mesmos sobrenomes de quem trouxe o café para a região.

O militar luso-brasileiro Francisco de Melo Palheta é responsável pela introdução do cultivo do café em Brasil e Portugal. Chegou ao Ceará através de José Furna Uchôa, e em Guaramiranga através de Felipe Castelo Branco. E o patriarca da família se chama José Castelo Uchôa.

Ele trabalhava cuidando de um sítio, que adquiriu após se aposentar e iniciou a produção de café em 1937. Por suas inúmeras habilidades, era conhecido na região como “mestre Zé Uchôa”.

Na época, o café era uma cultura muito valorizada em Guaramiranga, ao ponto de famílias tradicionais educarem seus filhos na Europa com o dinheiro da produção.

“Mas meu avô nunca enricou, eu acho que ele já pegou o café na época que já estava caindo. Em 1937 já não tinha aquela produção de antes, eu não lembro do meu pai ser rico por causa de café. A produção dele, no máximo, chegou a 30 sacas de café”, explica Francisco Uchôa.

Francisco Uchôa é quem toca os empreendimentos da família. (FOTO: Rosana Romão)

Francisco Uchôa é quem toca os empreendimentos da família. (FOTO: Rosana Romão)

História do café

Quando o mestre Zé Uchôa faleceu, as filhas queriam vender o sítio, mas o neto Francisco Uchôa quis dar continuidade à tradição da família. A aquisição foi em 1975, mas como trabalhava como coronel do exército, só pode se dedicar ao sítio e à produção do café quando se aposentou, em 2000. Antes só pagava os moradores e visitava o local nas férias.

O que antes era residência do mestre Zé Uchôa hoje é o Casarão dos Uchôa, uma pousada localizada no centro de Guaramiranga. De início, o objetivo da pousada era para criar recursos para pagar o sítio.

Paralelo a isso, Seu Uchôa, passou a investir no café. Se especializou no assunto e acompanhou o processo de produção feito por outras famílias tradicionais, como João Caracas, proprietário do Sítio Floresta, em Pacoti.

Na época, os produtores da Serra de Baturité chegaram a criar uma cooperativa, mas depois foi extinta. “Os maiores produtores de Guaramiranga, que era o Majó Hugo hoje abandonaram a produção. Praticamente quem produz hoje são pouquíssimas pessoas. E a maioria vende o café cru”, complementa Uchôa.

Casa do “véi da mata”, uma das atrações da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)

Casa do “véi da mata”, uma das atrações da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)

Produção

A produção demora, desde a florada até o café, 9 meses. Isso porque depois da colheita, o café tem 3 meses de estresse, onde ele só descansa. Ou seja, a safra é uma vez por ano. A chuva torna a produção mais atrativa. “Com a chuva, a produção está ótima. Porque assim o café encorpa, se não tiver chuva ele sai miudinho. Esse ano vai ser melhor do que o ano passado, mas nunca vai chegar à produção que a gente queria que tivesse, como 30 sacas de café. Ou seja, dobrar a produção”, explica Seu Uchôa.

Atualmente, o “Café Guará”, produzido pela família Uchôa tem boa aceitação. O quilo é vendido a R$ 50 em grão e a R$ 40 em pó. A diferença se dá porque em grão só entram os cafés inteiros e graúdos, já em pó são inclusos os quebrados. “À medida em que a gente vai vendo os resultados, começa a gostar. Recebe elogios, como ‘o café tá ótimo’, então uma coisa vai levando a outra. Hoje eu sei que o nosso café tá bom mas quero melhorar a qualidade para que ele seja reconhecido nacionalmente”, promete.

A única dificuldade apontadas pelo produtor, é a falta de profissionais apaixonados pela produção. “Eu tenho duas pessoas que trabalham para mim, como Jardelino e Chiquinho, em quem eu confio. Tô penando pra encontrar um jovem que aprenda com eles. Mas o pessoal acha que o trabalho na roça é mais duro e prefere trabalhar com outras coisas, como construção”, lamenta.

Trilha do Café. (FOTO: Rosana Romão)

Trilha do Café. (FOTO: Rosana Romão)

Rota do Café Verde

Embora tenha diferença entre os cafés produzidos em Guaramiranga, Baturité, Pacoti e Mulungu, eles tem algo em comum que tem atraído turistas para a região: a Rota do Café Verde, criada pelo Sebrae Ceará em novembro de 2015. Ainda quando a entidade fazia a vistoria entre os sítios que iriam integrar a rota, a família Uchôa foi escolhida como um caso de sucesso, porque possuía um sítio, uma pousada e uma trilha, com a produção do café. Visionário, Seu Uchôa ainda pretende produzir banana passa e adubo orgânico.

Um dos questionamentos feito pelo representante da família Uchôa é que apesar do atrativo natural do clima agradável, Guaramiranga recebe turistas por um período curto. Segundo ele, na maioria das vezes, por quatro dias no máximo. “Mesmo em épocas festivas, não tem atrativos para você ir. Se você não tiver uma pessoa pra lhe levar nos cantos, como Linha da Serra, Pico Alto e cachoeiras, você vai ficar sem fazer nada”, comenta. Por isso, ele tenta impulsionar o turismo ecológico com a trilha e as hospedagens no Sítio Águas Finas e Casarão dos Uchôa. Para Uchôa, a Rota do Café Verde veio acrescentar os atrativos.

Seu Uchôa e Chiquinho, guias da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)

Seu Uchôa e Chiquinho, guias da trilha. (FOTO: arquivo pessoal)

Hospedagem

A família Uchôa oferta dois tipos de hospedagens: uma para quem quer contato total com a natureza e outra para quem deseja ficar mais perto da cidade. A primeira trata-se do Sítio Águas Finas, cercado de verde, ele oferece conforto com quatro suítes para casais e áreas compartilhadas, como sala de estar e cozinha. Com capacidade para 10 pessoas, o lugar é ideal para grupo de amigos ou famílias que queiram dividir o mesmo espaço. De acordo com a quantidade de pessoas, o preço é negociável.

Já o Casarão dos Uchôa é ideal para quem quer praticidade, pois é possível se deslocar a pé para lojas e restaurantes do centro da cidade. Aconchegante, o estabelecimento dá a impressão de que você está hospedado na casa de um parente. São três suítes e uma área maior que pode ser compartilhada por até 11 pessoas. O valor da diária é de R$ 200, mas no caso de duas diárias, a segunda tem 50% de desconto, ou seja, um fim de semana custa R$ 300. Nos dois lugares, você pode saborear o café produzido pela família no café da manhã.

Casarão dos Uchôa. (FOTO: Alex Uchôa)

Casarão dos Uchôa. (FOTO: Alex Uchôa)

Trilha

A trilha do café é localizada ao lado do Sítio Águas Finas e tem uma taxa simbólica de visitação de R$ 15 por pessoa. Há horários às 10h, 11h30, 13h30 e 15h. Existem dois percursos, a trilha curta e a trilha longa. Se você é um praticante ativo de atividades físicas, vale a pena fazer a longa. Se estiver acompanhado de crianças, pode fazer a curta que vai gostar do mesmo jeito e não irá cansar os pequenos. Entre as atrações, estão a Árvore Barriguda, com mais de 100 anos de idade, a Casa do Véi da Mata, a Casa do João de Barro, o Encontro dos Ventos e o Túnel do Amor. A maior parte da trilha tem sombra, então, dá pra fazer em qualquer horário. É aconselhável passar protetor solar, e estar equipado de tênis. Os guias adoram uma prosa e você vai adorar fazer o percurso ouvindo boas histórias.

Árvore barriguda. (FOTO: arquivo pessoal)

Árvore barriguda. (FOTO: arquivo pessoal)

Serviço

Casarão dos UchôaFacebookInstagram
Rua Coronel Francisco de Matos Brito, 163. Guaramiranga – Ceará
Telefone: (85) 3321-1442 | E-mail: casaraodosuchoa@hotmail.com

A repórter viajou para Guaramiranga a convite do Casarão dos Uchôa

Plantação de café no Sítio São Roque. (FOTO: Jonas Loongreen)

Turismo sustentável: Guaramiranga lança Rota do Café Verde

Guaramiranga recebe a Rota do Café, com a proposta de levar visitantes para conhecerem as fazendas e sítios dos produtores do café de sombra, num passeio pela história, arquitetura e pelos atrativos naturais da serra, além de desfrutarem do café e outros quitutes regionais. Haverá visita aos principais pontos de produção: Baturité, Mulungu, Guaramiranga e Pacoti. O ponto de partida é a Estação Ferroviária de Baturité, que abriga o Museu Municipal, passando por diversos sítios, com casarões, trilhas e vistas de beleza única.

A rota, voltada para o desenvolvimento sustentável da cafeicultura local, foi lançada durante o Viva Guará, que aconteceu de 27 a 29 de novembro de 2015. A ação  consiste em um tour temático, com visitas aos locais onde se está revitalizando a produção do café de sombra, de produção agroecológica.

Jardins, pássaros e um casarão autêntico compõem o cenário da propriedade São Roque. (FOTO: Jonas Loongreen)

Jardins, pássaros e um casarão autêntico compõem o cenário da propriedade São Roque. (FOTO: Jonas Loongreen)

Mais do que um agradável passeio para admirar a arquitetura preservada, em contato com a natureza e desfrutar da calmaria da serra, a rota promove um resgate da história do Ciclo do Café na região, sendo uma oportunidade para conhecer o processo de beneficiamento do café, além de provar doces de frutas e bolo de café, e comprar produtos orgânicos, incluindo o café.

Sobre a Rota do Café

Consumir café é tradição e geração de riquezas. Um dos produtos mais importantes da história nacional, movimenta milhões de sacas exportadas ao ano, respondendo por um terço da produção mundial. Nas últimas décadas, um novo ingrediente vem se misturando ao café brasileiro: a preservação do meio ambiente.

No Ceará, a revitalização da cultura do café sombreado de prática agroecológica vem evoluindo em volume de produção, evitando o processo de degradação do solo, contribuindo com a preservação da mata nativa e evitando o assoreamento dos rios. Na Serra de Baturité – 100 km de Fortaleza, encontramos uma produção de café sombreado de importância ambiental e socioeconômico.

O Sítio São Roque cultiva café desde 1813. (FOTO: Divulgação)

O Sítio São Roque cultiva café desde 1813. (FOTO: Divulgação)

Principais pontos da Rota do Café Verde

Museu de Baturité

O Prédio da antiga Estação Ferroviária de Baturité abriga o Museu Municipal com acervo pertencente aos trens e ao complexo ferroviário e ainda mobiliário e objetos das antigas residências da região que remontam o contexto histórico social do início do Século 20. Comemorando o lançamento da rota, a Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) também traz uma exposição itinerante do seu Centro Cultural.

Museu de Baturité. (FOTO: divulgação)

Museu de Baturité. (FOTO: divulgação)

Fazenda Caridade e Mosteiro dos Jesuítas

No local, os visitantes têm a oportunidade de conhecer uma edificação religiosa majestosa com vista panorâmica do Maciço de Baturité, além de avistar a Fazenda Caridade, um verdadeiro cartão postal do plantio do café sombreado. Pela sua importância para a região, o café sombreado ganha uma exposição permanente e pode ser adquirido na lojinha do Café do Mosteiro.

Mosteiro dos Jesuítas. (FOTO: divulgação)

Mosteiro dos Jesuítas. (FOTO: divulgação)

Sítio Águas Finas

Onde os visitantes começam, então, a percorrer os cafezais de sombra da Serra. Pela trilha, será revelada toda a história das primeiras mudas que aqui chegaram até seu atual processo de revitalização, além do contato com a fauna e a flora local. No sítio, se produz o Café Guará pelas mãos da tradicional Família Uchôa.

Trilha do café no Sítio Águas Finas. (FOTO: Rosana Romão)

Trilha do café no Sítio Águas Finas. (FOTO: Rosana Romão)

Sítio São Roque

Jardins, pássaros e um casarão autêntico ladeado pela capela em homenagem a São Roque compõem o cenário que os visitantes encontram ao chegar na propriedade São Roque, que data de 1813, e conta ainda com um terreiro – chamado de faxina – onde o café era posto pra secar.

Há quase um século no cultivo do café, o proprietário Gerardo Farias, recebe os visitantes contando sua jornada na preservação do meio ambiente com centenas de pés de café em meio às ingazeiras. Um dos talentos do São Roque é Marcinha, craque nos doces mexidos no tacho mexido e no fogão à lenha, feitos com as frutas do sítio.

Plantação de café no Sítio São Roque. (FOTO: Jonas Loongreen)

Plantação de café no Sítio São Roque. (FOTO: Jonas Loongreen)

Sítio Floresta

No Floresta, o passeio irá mostrar todas as etapas do processo de beneficiamento do café de sombra, desde o banco de mudas, passando pela piladeira até a torra de grãos. O sítio produz uma linha de produtos naturais, derivados do café e da banana. O anfitrião é o proprietário João Caracas, que também é de família tradicional e entende tudo de café.

Café da manhã no Sítio Floresta. (FOTO: Rosana Romão)

Café da manhã no Sítio Floresta. (FOTO: Rosana Romão)

Sítio São Luís

Erguido pelas mãos de arquitetos holandeses, o casarão se tornou exemplar único na região com suas arcadas imponentes que guardam toda história das famílias pioneiras do cultivo do café. É cercado por uma mata sem igual numa paisagem que já foi cenário de vários filmes. Portas, azulejos, pinturas, móveis e uma cozinha que remontam os tempos áureos do Ciclo do Café. A proprietária Cláudia Góes revela essa trajetória e convida os visitantes para provar do famoso bolo de café, de receita centenária.

Sítio São Luís, que já foi cenário de filme. (FOTO: divulgação)

Sítio São Luís, que já foi cenário de filme. (FOTO: divulgação)



“A nossa participação no Viva Guará esse ano, evento que promove anualmente uma imersão nas potencialidades da Serra de Baturité para o fomento do Turismo Sustentável, tem como objetivo compartilhar com as comunidades locais e seus visitantes os resultados das ações de integração e qualificação no setor de produção do café verde, capaz de provocar um impacto ambiental e socioeconômico relevante e positivo para toda a região”, destaca Fabiana Gizele, articuladora do escritório regional do Maciço de Baturité do SEBRAE Ceará.