Cearense relata experiência de largar tudo para morar na Irlanda

Imagine você, que tem um sonho de aprender a língua inglesa, largar um emprego estável, a família e os amigos para se arriscar em um país que não conhece. O que para muitos poderia ser loucura, para Napoleão Fonteles foi realidade. Há quatro anos saiu do Bairro Messejana, em Fortaleza, para morar em Dublin, onde já passou por diversos empregos, melhorou o inglês, mas não pensa em voltar para o Brasil.

Escolheu a Europa pela facilidade de visitar outros países. Para conseguir realizar a viagem,  pensou em vender água nos semáforos de Messejana, bairro que morava em Fortaleza. Mas optou por um alimento que pudesse ser vendido por ele e amigos que se solidarizassem à causa, então aprendeu a fazer brownie e o vendia por onde passava. Em pouco tempo conquistou o objetivo e iniciou a etapa do intercâmbio.

O período de adaptação foi complicado porque nunca havia morado só ou mesmo se preocupado com contas para administrar. Dividiu a casa com quatro pessoas e teve que buscar equilíbrio para aprender a lidar com as diferenças. Outro desafio era encontrar produtos que não eram comuns, como requeijão. “Um dia eu descobri que tinha em um mercadinho indiano. Foi muito engraçado, porque não imaginava que ía achar lá, e também era muito caro”, relembra.

Adaptação

A primeira aula no curso de inglês causou medo. Havia pessoas de diversos países e, por não entender bem o que conversavam, o cearense pensou em desistir. “Era gente da Venezuela, da Coréia, alguns brasileiros. Na primeira semana eu fiquei muito aterrorizado. Pensei em voltar pro Brasil e sair correndo, mas vi que eu tinha que encarar”.

Napoleão trabalhou em restaurantes Irlandês e Francês, no Estádio Aviva, em cozinha de golfe, academia e também foi kitchen porter (lavador de pratos) no Google. No início, trabalhou de graça durante um mês em um hotel, em troca de comida e certificado.

Enfrentou preconceito por ser brasileiro em alguns momentos, mas ao trabalhar como Rickshaw – uma espécie de táxi usando uma bicicleta – era cumprimentado com muita alegria ao apresentar-se como brasileiro e até cearense.

Empolgado com a energia dos clientes, ele gravou vídeos e publicou na internet. Em um deles, um grupo de irlandeses canta a música “Ai, se eu te pego”, do cantor Michel Teló logo após saberem a sua nacionalidade. E mais inusitado ainda, um argentino cantou a música “Morango do Nordeste”, de Lairton dos Teclados

Até o momento já visitou seis países, nove cidades e o campo de refugiados em Auschiwitz, onde teve uma experiência marcante. “Eu ouvia que não tem como não se colocar no lugar daqueles judeus. Foi bastante forte quando eu entrei em uma das salas onde são mantidos os cabelos das mulheres, que eram cortados quando elas chegavam no campo. A parte dos brinquedos das crianças também me marcou”, relata.

A seguir, o cearense relata peculiaridades sobre viver em Dublin.

Festa tradicional irlandesa. (FOTO: arquivo pessoal)

Festa tradicional irlandesa. (FOTO: arquivo pessoal)

De acordo com a sua experiência, qual o tempo necessário para aprender inglês morando na Irlanda?

Depende do nível de inglês que cada um tem e da sua disposição. Mas acredito que, no mínimo, um ano, sendo seis meses de curso e seis meses trabalhando.

Como é ser um brasileiro na Irlanda?

A população brasileira aqui em Dublin, se eu não me engano, é a maior. Em todo canto que for, tem muitos brasileiros. Mas existem muitos irlandeses e gringos que quando conhecem um brasileiro ficam muito felizes. Ao mesmo tempo tem uns caras que fazem aquela brincadeira “ah, brasileiro, tem as mulheres mais gostosas”, perguntam se só é carnaval.

Se sentiu excluído por ser brasileiro?

Algumas vezes. Uma delas foi quando eu estava trabalhando em um restaurante francês e um dos garçons me olhou com uma cara de desprezo quando disse que era brasileiro. E continuou: “ah, você é do Brasil, mas pelo menos é de São Paulo”. Eu disse que não, que era do nordeste. Aí ele fez outra cara de desprezo e começou a debochar de mim.

Já fui agredido por um grupo comum em Dublin, parecido com os “vetim” de Fortaleza. Eles costumam agredir verbalmente e até fisicamente os estrangeiros. Foram situações que me deixaram chateado, mas nada que eu pense “ah, vou voltar para o Brasil”. No geral, amo essa cidade, amo esse país.

Na outra semana aconteceu algo mais triste. Eu estava voltando do trabalho umas 23h e uma irlandesa me parou, pedindo para eu dar dinheiro para um mendigo. Eu falei “infelizmente eu tô sem grana”. Ela me xingou e disse “você é uma merda (sic) de um estrangeiro”, como se eu tivesse obrigação de dar o dinheiro só por estar no país dela.

Quando ela falou isso, eu fiquei muito triste, me sentindo muito mal. Mas sei que não posso generalizar, o povo irlandês não é desse jeito, eles são muito amigáveis e simpáticos.

Vivenciou histórias engraçadas?

São dois lados da moeda, tem uma galera que fala mal do Brasil e tem a que ama o Brasil. Quando eu trabalhava como rickshaw [táxi de bicicleta], dei carona para uma holandesa e ela perguntou de onde eu era. Quando eu falei que era do Ceará, ela disse: “Nossa, eu não acredito! Do Ceará? Eu passei 18 dias em Jericoacoara, você provavelmente vivia lá”. Eu nunca fui em Jericoacoara!  A mulher quase que me batia depois dessa. (risos)

Outra vez dei carona para um argentino e quando eu falei que era do Ceará, ele falou: “Não acredito! Eu amo o Nordeste, eu sou o argentino mais brasileiro do mundo! Eu amo o moranguinho do nordeste. E eu “como é, velho”? Daí ele começou a cantar, foi muito engraçado.

Recomenda a experiência para outros brasileiros?

Recomendo pra todo mundo, jovem, adolescente, idoso. O ponto positivo é que você vai ver que o mundo é muito pequeno pra você ficar no mesmo canto pra sempre, sem expandir. O ponto negativo é que você vai querer sempre viajar. Quando você mora em um lugar onde as coisas funcionam, você pensa “poxa vida, porque não pode ser assim no Brasil”?